Este espaço se propõe a reunir material sobre loucura e todo o aparato que a envolve. Espaço para memória, videos, leituras, noticias e tudo o mais que nos cair em mãos em nossa tarefa diária de pensar sobre o tema.Também postaremos materiais que, ainda que não se relacionem diretamente com o tema, esclarecem o pensamento de autores importantes para se chegar lá. Doiduras, maluquices, vesânias de toda sorte serão bem vindas.

30 de nov de 2011

L'ABÉCÉDAIRE DE GILLES DELEUZE - S De STYLO

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(O abecedario de Gilles Deleuze. -Entrevista feitas a Deleuze por Claire Parnet. Retirada da internet -- em O estrangeiro.net --, a tradução que se segue não revela o nome do bem intencionado internauta que a fez. De qualquer forma lhe somos gratos.)

S de Style [Estilo]
CP: S de Style [Estilo].
GD: Essa é boa.
CP: O que é o estilo? Em Diálogos, você diz que é a propriedade daqueles que não têm estilo. Disse isso sobre Balzac, se não me engano. O que é um estilo?
GD: Essa não é uma perguntinha à toa.
CP: Foi por isso que perguntei tão rápido.
GD: Eu acho o seguinte: para entender o que é um estilo, não se deve saber nada de lingüística. A lingüística causou muito mal. Por quê? Porque há uma oposição da qual Foucault falou muito bem. Há uma oposição entre a lingüística e a literatura. Ao contrário do que dizem, elas não combinam. Para a lingüística, uma língua é sempre um sistema em equilíbrio, portanto, da qual existe uma ciência. E o resto, as variações, vão para o lado da fala e não da língua. Quando se escreve, sabe-se que uma língua é, na verdade, um sistema que está longe do equilíbrio, é um sistema em perpétuo desequilíbrio. Tanto que não há diferença de nível entre língua e fala, mas a língua é feita de todo tipo de correntes heterogêneas em desequilíbrio umas com as outras. Mas o que é o estilo de um grande autor? Eu acho que existem duas coisas em um estilo. Vou responder clara e rapidamente, e tenho vergonha de ser tão breve! Um estilo é composto de duas coisas: a língua que falamos e escrevemos passa por um tratamento que é um tratamento artificial, voluntário. É um tratamento que mobiliza tudo: a vontade do autor, assim como seus desejos, suas necessidades, etc. A língua sofre um tratamento sintático original. Nisso encontramos novamente o tema do animal. Pode ser fazer a língua gaguejar. Não estou falando de você mesmo gaguejar, mas de fazer a língua gaguejar. Ou fazer a língua balbuciar, o que não é a mesma coisa. Vejamos exemplos de grandes estilistas: o poeta Ghérasim Luca. A grosso modo, ele faz gaguejar, não sua própria fala, mas a língua. Péguy! É engraçado, porque as pessoas acham que Péguy tem uma personalidade estranha, mas esquecem que, acima de tudo, como todo grande artista, é um louco total. Nunca ninguém escreveu, nem escreverá como Charles Péguy. Ele faz parte dos grandes estilistas da língua francesa, das grandes criações da língua francesa. O que ele faz? Não se pode dizer que seja um gaguejar. Ele faz a frase crescer pelo meio. É fantástico! Em vez de fazer frases que se seguem, ele repete a mesma frase com um acréscimo no meio dela, o qual, por sua vez, vai gerar outro acréscimo, etc. É um processo no qual ele faz a frase proliferar pelo meio através de inserções. Um grande estilo é isso. Este é o primeiro aspecto: fazer com que a língua passe por um tratamento, mas um tratamento incrível. É por isso que um grande estilista não é um conservador da sintaxe. É um criador de sintaxe. Eu mantenho a bela fórmula de Proust: "As obras-primas são sempre escritas em uma espécie de língua estrangeira". Um estilista é alguém que cria em seu idioma uma língua estrangeira. Isso vale para Céline, para Péguy. É assim que se reconhece um estilista. Ao mesmo tempo que, sob o primeiro aspecto, a sintaxe passa por um tratamento deformador, contorcionista, mas necessário, que faz com que a língua na qual se escreve se torne uma língua estrangeira, sob o segundo aspecto, faz-se com que se leve toda a linguagem até um tipo de limite. É o limite que a separa da música. Produz-se uma espécie de música. Quando se conseguem essas duas coisas e se há necessidade para tal, é um estilo. Os grandes estilistas fazem isso. É verdade para todos: cavar uma língua estrangeira na própria língua e levar toda a linguagem a uma espécie de limite musical. Ter um estilo é isso.
CP: E você acha que tem um estilo?
GD: Que perfídia!
CP: Mas seu estilo mudou desde o seu primeiro livro.
GD: A prova de um estilo é a variabilidade. E, em geral, vai se tornando cada vez mais sóbrio. Mas isso não quer dizer menos complexo. Penso em um dos autores que muito admiro do ponto de vista estilístico: Jack Kerouac. No final, Kerouac é uma linha japonesa. Seu estilo é um desenho japonês, uma pura linha japonesa. Tornar-se mais sóbrio, mas isso sempre implica a criação de uma língua estrangeira na própria língua. Eu também penso em Céline. As pessoas costumavam dizer que Céline introduziu a língua falada na escrita. É uma besteira, pois, na verdade, há um tratamento escrito na língua, é preciso criar uma língua estrangeira na própria língua para se obter por escrito a equivalência da língua falada. Ele não introduziu o falar na escrita. Mas quando o elogiam por isso, ele sabe muito bem que está muito longe do que ele queria. E vai ser no segundo romance, em Mort à crédit, que ele vai se aproximar mais. Quando Mort à credit foi publicado, disseram que ele havia mudado. E ele sabe novamente que está longe do que quer. Ele vai obter o que quer em Guignol's bande, no qual ele realmente leva a linguagem a um limite tal que a aproxima da música. Não é mais o tratamento da língua que a torna estrangeira, mas o fato de toda a linguagem ser levada a um limite musical. Por natureza, um estilo muda, ele tem variações.
CP: É verdade que se pensa muito em Steve Reich, com sua música repetitiva, quando se lê Péguy.
GD: Sim, só que Péguy tem mais estilo do que Steve Reich.
CP: Não respondeu à minha perfídia. Você acha que tem estilo?
GD: Eu gostaria de ter. O que posso dizer? Para ser um estilista, dizem que é preciso viver o problema do estilo. Se é assim, para responder com mais modéstia, eu vivo o problema do estilo. Nunca escrevo sem pensar no estilo. Sei que eu não obteria o movimento dos conceitos que eu desejo sem passar pelo estilo. Sou capaz de refazer dez vezes a mesma página.
CP: O estilo é como uma necessidade de composição do que você escreve. A composição entra em jogo de forma primordial.
GD: Acho que tem toda razão. O que está dizendo: será que a composição de um livro já é uma questão de estilo? Acho que é sim. A composição de um livro é algo que não se resolve previamente. Ela acontece ao mesmo tempo em que o livro é escrito. Por exemplo, vejo em livros que eu escrevi, se me permite citar o que eu fiz... Há dois livros meus que me parecem compostos. Sempre dei importância à composição. Penso em um livro chamado Lógica do sentido que é composto por séries. Para mim, é uma composição serial. E Mil platôs é uma composição por platôs. Para mim, são duas composições musicais, sim. A composição é um elemento fundamental do estilo.
CP: Em sua expressão, você acha que, hoje, está mais próximo do que queria fazer há vinte anos atrás? Ou não é nada disso?
GD: Atualmente, tenho a impressão de estar me aproximando, sim. No que ainda não foi feito, acho que estou me aproximando. Detenho algo que eu buscava e não tinha encontrado.
CP: O estilo não é só literário. É sensível a ele em todas as outras áreas. Você vive com a elegante Fanny e seu amigo Jean-Pierre também é muito elegante. É muito sensível a esta elegância?
GD: Sim, eu me sinto... Eu gostaria de ser muito elegante, mas sei que não sou. Mas, para mim, a elegância é uma coisa... Quero dizer que existe uma elegância que consiste em se perceber o que é uma elegância. Do contrário, há pessoas que não entendem nada e o que chamam de elegância não é nada elegante. Uma certa compreensão da elegância já faz parte da elegância. Isso me impressiona muito. É uma área que, como todas as outras, exige um certo aprendizado, um certo talento... Mas por que perguntou isso?
CP: Por causa do estilo.
GD: Sim, claro. Mas este aspecto não é nada valioso. O que talvez se deveria...
CP: Deveria?
GD: Não sei. Acho que não depende apenas da elegância, que é uma coisa que admiro muito, mas o importante no mundo é tudo o que emite signos. A não-elegância e a vulgaridade também emitem signos. É muito mais isso que me importa. São as emissões de signos. É certamente por isso que gostei tanto e ainda gosto de Proust. O mundanismo, as relações mundanas são emissões de signos fantásticas. O que chamam de gafe é uma não-compreensão de um signo. São signos que as pessoas não entendem. A mundanidade como um meio fértil de signos vazios, absolutamente vazios, sem interesse algum, mas são as velocidades, a natureza das emissões. Isso tem a ver com o mundo animal, pois ele também é um emissor de signos fantásticos. Os animais e os mundanos são mestres em signos.
CP: Você não sai muito, mas sempre preferiu noites mundanas a conversas entre amigos.
GD: Sim, porque nos meios mundanos, não se discute, não há esta vulgaridade. E a conversa é totalmente supérflua, leve, com evocações extremamente rápidas. São emissões de signos muito interessantes.

20 de nov de 2011

Um louco? Gui de Maupassant

QUANDO me contaram: “Sabe que Jacques Parent morreu numa casa de saúde?”, um doloroso calafrio, um calafrio de medo e angústia me percorreu pelos ossos; e revi bruscamente, depois de tanto tempo, aquele corpulento e estranho louco, talvez, maníaco inquietador, medonho mesmo.
Era um homem de quarenta anos, alto, magro, meio curvo, com olhos de alucinado, olhos negros, tão negros que não se lhe distinguiam as pupilas, móveis, inquietas, enfermas, angustiantes. Aquele ser singular, perturbador, que emanava, que lançava em redor de si um vago mal- estar, da alma, do corpo, uma dessas incompreensíveis reações nervosas que fazem crer em influências sobrenaturais.
Ele possuía um sestro aborrecido: a mania de esconder as mãos. Porque jamais ele as deixava errar como nós fazemos sobre todos os objetos, em cima das mesas. jamais ele agarrava as coisas com aquele gesto familiar que todos temos. jamais ele as conservava nuas, aquelas mãos ossudas, magras, algo febricitantes.
Ele as afundava nos bolsos, sob as axilas, ao cruzar os braços. Diziam que receava elas praticassem, à sua revelia, algum gesto proibido, que cometessem alguma ação vergonhosa ou ridícula, caso as deixasse livres em seus movimentos.
Quando era obrigado a servir-se delas, para os usos comuns da vida, fazia-o por movimentos bruscos, rápidos impulsos dos braços, como se não lhes quisesse dar tempo de agir por si próprias, de fugirem à sua vontade, de executarem outros movimentos. A mesa, servia-se do copo, do garfo ou da faca tão rapidamente que nunca se tinha tempo de prever o que iria fazer antes que ele completasse o gesto.
Então, certa noite, tive a explicação da surpreendente doença de sua alma.
Ele vinha passar, de tempos em tempos, algum dia comigo no campo, e, naquela noite, apareceu-me particularmente agitado.
Uma tempestade desenhava-se no céu, abafado e negro, depois de um dia de calor atroz. Nenhum sopro de ar movia as folhas. Um calor de forno oprimia os rostos, fazendo os peitos ofegarem. Eu me sentia mal, agitado, e desejava ir para a cama.
Quando percebeu que me levantava para sair, Jacques Parent segurou, me pelos braços, num gesto sobressaltado.
- Oh, não, fique mais um pouco! – exclamou.
Fitei-o com surpresa, e murmurei:
- Essa tempestade próxima abala-me os nervos.
Ele gemeu, ou melhor, berrou:
- E a mim, então? Oh, fique, rogo-lhe, pois não posso estar sozinho!
Pareceu-me desvairado.
Perguntei-lhe:
- Que tem você? Perdeu a cabeça?
- Sim, em alguns momentos, como em noites assim, noites plenas de eletricidade. . . eu tenho… eu tenho… tenho medo… tenho medo de mim mesmo … Não me compreende? É que sou dotado de um poder … não, de uma potência… de uma força… Enfim, não sei explicar o que seja, mas existe em mim uma ação magnética tão extraordinária que me apavora, que me faz temer a mim mesmo, como lhe disse há pouco.
E, ao falar, sentia estranhos arrepios, suas mãos vibravam, ocultas, por baixo do paletó. E eu mesmo me senti logo invadido de um temor confuso, poderoso, horrível. Tive vontade de partir, salvar-me, de nunca mais vê-lo, de jamais tornar a ver aqueles olhos errantes pousarem em mim, e depois se afastarem, fixarem-se no teto, à procura de algo, de algum canto sombrio onde se firmarem, como se ele quisesse ocultar, também, seu temível olhar.
Balbuciei a custo:
- Você nunca me disse isso.
E ele retrucou:
- E quer que conte isso a qualquer um? Vamos, ouça, esta noite não mais me posso calar. E apraz-me, realmente, que você fique sabendo de tudo. Sim,- até poderá socorrer-me, se for preciso.
“0 magnetismo! Sabem lã o que é? Não. Ninguém o sabe. Todavia, o constatam. Reconhecem-no os próprios médicos, que o praticam. Um dos mais ilustres, Charcot, professa-o; então, sem dúvida, existe.
“Um homem, um ser, possui o poder terrível e incompreensível de adormecer, com a força de sua vontade, outro ser, e, durante o sono deste, rouba-lhe o pensamento, ou melhor, sua alma; a alma, esse santuário, esse recesso do Eu, a alma, esse segredo que o homem julga impenetrável, a alma, esse refúgio dos indecifráveis pensamentos, de tudo que ocultamos, de tudo quanto amamos, de tudo que desejamos furtar aos olhos humanos. E ele a abre, viola-a, escancara-a, mostra-a em público! Não é isso atroz, .criminoso, infame?
- Porque, como se pode fazer tal coisa? Quem poderá sabê-lo?
” Tudo é mistério. Nós não nos comunicamos com as coisas senão por meio de nossos miseráveis sentidos, incompletos, frágeis, tão débeis que mal têm o poder de verificar o que nos rodeia. Tudo é mistério. Pense na música, essa arte divina, essa arte que nos arrebata a alma, que a transporta, que a embriaga, que a enlouquece; e que e ela, então? Nada!
“Você não me compreende? Ouça. Dois corpos se chocam. 0 ar vibra. Essas vibrações são, mais ou menos, numerosas, mais ou menos rápidas, mais ou menos fortes, segundo a natureza do choque. Agora, nós temos no ouvido uma pequena membrana, que recebe essas vibrações do ar e as transmite ao cérebro, em forma de som. Imagine que um copo de água se transforme em vinho em sua boca. 0 tímpano realiza essa incrível metamorfose, esse surpreendente milagre de transformar o movimento em som. E isso é tudo.
“A música, essa arte complexa e misteriosa, exata como a álgebra e vaga como um sonho, essa arte feita de matemáticas vibrações, resulta, portanto, da estranha propriedade de uma membrana. Se não existisse essa membrana, o som também não existiria. porque ele, em si, não passa de uma vibração. Sem o ouvido, se tornaria ele em música? Não! Pois bem, nós somos rodeados de coisas que Jamais perceberemos, porque nos faltam os órgãos necessários que no-las revelem.
“0 magnetismo pode ser uma dessas coisas, talvez. Nós não podemos senão pressentir-lhe o poder, mal tentamos timidamente sentir a proximidade dos espíritos, sem poder explicar esse novo segredo da natureza, porque não possuímos o instrumento revelador.
“Quanto a mim- Quanto a mim, sou dotado de um poder espantoso. Dir-se-ia haver outro ser encerrado em mim, que deseja, sem cessar, evadir-se, agir à minha revelia, um ser que se move, que me rói, que me possui. Quem é ele? Nada sei, mas somos dois em meu pobre corpo, e é ele, o outro, que freqüentemente é o mais forte, como acontece esta noite.
“Basta-me apenas olhar para as pessoas para adomecê-las. como se lhes houvesse ministrado ópio. Basta-me estender as mãos para produzir coisas… coisas horríveis. Você quer saber? Sim, você quer saber! Meu poder estende-se não só sobre os homens mas também sobre os animais e, mesmo… sobre os objetos.
“E isso me atormenta e me apavora. Quantas vezes me assaltou o desejo de vazar os olhos e decepar as mãos!
“Mas eu quero… quero que você saiba de tudo! Venha! Vou mostrar-lhe aquilo… não sobre criaturas humanas, que isso todos sabem fazer, vê-se: em toda parte, mas sobre… sobre… um animal.
“Chame Mirca!
Ele caminhava a passos largos, feito um alucinado, e suas mãos saíram dos bolsos. Elas surgiram assustadoras, como se ele houvesse desnudado duas espadas.
Eu lhe obedecia maquinalmente, subjugado, vibrando de terror, mas devorado por uma espécie de desejo impetuoso de ver, de saber. Abri a porta e assobiei para minha cadela, que dormia no vestíbulo. Ouvi-lhe logo o raspar das unhas junto às escadas e ela surgiu alegre, balançando o rabo.
Em seguida, fiz-lhe sinal para deitar-se numa poltrona; ela obedeceu e Jacques começou a olhar para ela, afagando-a.
A Principio, a cadela parecia inquieta: estremecia, virava a cabeça. a fim de evitar o olhar fixo do homem, tomada de um medo sempre crescente. De repente, principiou a tremer, como tremem os cães. Todo seu corpo palpitava, sacudido de longos arrepios, e quis fugir dali. Mas Jacques pousou a mão sobre o crânio do animal, que emitiu, ao ser tocado, um desses longos uivos que se ouvem à noite pelos campos.
Sentei-me, também assustado, estarrecido, tanto, como se estivesse enjoando a bordo de um barco em mar agitado. Eu via os móveis caindo, moverem-se pelas paredes. E gaguejei:
- Chega, Jacques, chega!
Mas ele não mais me escutava, olhava para Mirza com um olhar fixo, contínuo, assustador. Ela cerrou os olhos enquanto deixava tombar a cabeça como se houvesse adormecido. Jacques olhou para mim.
- Está feito, agora você já viu.
E, atirando seu lenço para o outro lado do quarto, gritou:
- Traga-mo!
0 animal então se levantou e, tropeçando, cambaleando, como se estivesse cego, mexendo suas patas a custo, como os paralíticos fazem com suas pernas, seguiu na direção do lenço, que parecia uma mancha branca no chão. Ela tentou várias vezes pegá-lo na boca, mas mordia aos lados, sem atingi-lo, como se não o visse. Afinal alcançou-o e voltou para nosso lado, sempre . parecendo um cão presa de sonambulismo.
Era um espetáculo horrível de ver. Jacques ordenou:
- Deite-se!
Ela deitou-se. Então, ele lhe tocou a testa e disse:
- Uma lebre! Pega, pega!
- E o animal, sempre de lado, tentou correr movendo-se como se estivesse dormindo, e emitiu, sem abrir muito a goela, pequenos latidos de ventríloquos.
Jacques parecia ter enlouquecido. 0 suor jorrava-lhe da testa. Gritou:
- Morda, morda seu patrão!
A cadela teve dois ou três terríveis sobressaltos. Eu teria jurado que ela estava resistindo à ordem, que relutava. Ele repetiu:
- Morda-o!
Então, levantando-se, a cadela veio para meu lado. e eu recuei para junto da parede, fremindo de medo, o pé levantado para repeli-la.
Mas Jacques ordenou:
- Aqui, depressa!
Ela obedeceu-lhe. Então, com suas mãos enormes, ele pôs-se a esfregar a cabeça do animal, parecendo desembaraçá-lo de invisíveis liames.
Mirza reabriu os olhos:
- Pronto, está acabado, – disse Jacques.
Não ousei sequer tocá-la, e enxotei-a até à porta, por onde saiu. Caminhava lentamente, insegura, esgotada, e ouvi suas unhas novamente arranharem o chão.
Jacque; dirigiu-se a mim novamente:
- E isso não é tudo. 0 que mais me espanta, eis aqui, tome! Os objetos me obedecem também.
Ele tinha posto sobre a mesa uma espécie de corta, papel, de que me servia para cortar as páginas dos livros. Estendeu a mão para o objeto, que parecia rastejar, aproximando-se lentamente; e de súbito eu vi, sim, o corta- papel estremecer, depois agitar-se, deslizar suavemente, sozinho, sobre a madeira, rumo à mão que o aguardava, colocando-se-lhe entre os dedos.
Pus-me a gritar de terror. Também acreditei ter enlouquecido, mas o agudo de minha voz logo me acalmou.
Jacques recomeçou:
- Todos os objetos vêm, assim, à minha ordem. É por isso que oculto as mãos. Que será isso? Magnetismo, eletricidade, ímã? já não sei mais nada, porém, isso é horrível.
“E compreende você, também, por que é horrível? Quando estou só, assim que me encontro só, não posso impedir-me de atrair tudo quanto me rodeia.
“E passo dias inteiros mudando as coisas de lugar, não deixando nunca de experimentar esse abominável poder, como para verificar se ele não me deixou!
Ele havia metido de novo suas enormes mãos nos bolsos e olhava para as trevas, além da vidraça. Um pequeno ruído, um leve movimento pareceu sacudir a folhagem, por entre o arvoredo.
Era a chuva que começava a cair.
Murmurei:
- É espantoso!
Fie acrescentou:
- É horrível.
Um estrondo percorreu a folhagem, semelhante a uma rajada de vento. Era o aguaceiro, a pancada d’água, chovia torrencialmente.
Jacques começou a respirar a plenos pulmões, soerguendo o tórax.
- Deixe-me, – disse – a chuva vai acalmar-me. Neste momento, desejo ficar só.




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